EXPOSIÇÃO  17 AGO · 20 OUT 2013

UMA AVÉ-MARIA NA ILHA DE CAMÕES
Carlos Aurélio


Camões é para os portugueses o esteio da língua e o seu poeta maior, como por analogia, Dante para os italianos e Shakespeare para os ingleses. Não por acaso, é pela poesia que cada língua melhor enraíza a tradição, mais virilmente entronca na alma dos povos e mais generosa se derrama no espírito de heróis, poetas e santos. No fundo a poesia, ritmo subtil de um povo, é seiva da árvore frondosa sem a qual as pátrias estiolam e desaparecem.

Chamou Camões lusíadas a alguns de entre nós e não lusitanos, nossa raiz, nem sequer portugueses, identidade oficial assaz redutora dos «barões assinalados» ou dos heróis que «Se vão da lei da morte libertando». N’Os Lusíadas, os heróis não buscam pimenta e canela em qualquer empório comercial da Índia geográfica, antes desembarcam no império espiritual e cume épico da Ilha do Amor, «ínsula divina» movente no oceano «Que Vénus pelas ondas lha levava / Bem como o vento leva branca vela», assegura o poeta. Desta Ilha, vívida e autêntica, algures no mar da alma subtil de cada viageiro vagamundo, avista-se um certo Portugal de regresso ao paraíso. Nela cabe o V Império.

O filósofo português António Telmo (1927-2010) vai para 33 anos, foi o primeiro a decifrar Os Lusíadas como «narrativa poética de uma viagem de conhecimento, ou, se preferirdes de uma viagem iniciática, (…) uma transformação do sentir (…), a revelação, a epifania, o aparecimento de um novo intelecto que não tínhamos» antes da viagem. O caminho marítimo para a Índia é, no poema, uma espécie de descida aos infernos sendo que «o Adamastor significa o aspecto titânico do próprio Vasco da Gama (…) aparição do seu próprio ser naquele aspecto de força indómita, de violência e orgulho». Através de «Thétis, a do corpo cristalino, a potência hostil transmuda-se (...) na própria energia espiritual de Vasco da Gama» e «a energia destrutiva do ígneo oceano é transmutada em energia erótica e esta utilizada como base da visão suprema».

É pois heróica a viagem cristã a um certa Índia feita da mesma matéria de que são feitos os sonhos, via de mistério queimando egoísmos, trânsito que do amor humano ascende a sagrado, qual vinho excelso nas Bodas de Canaã. Na saudação do Anjo a Maria emerge o «fiat verbuum tuum» da Virgem, o “faça-se” que é nódulo e modelo da oração íntegra, casta porque pura, assim o gesto interior do herói lusíada no Portugal «onde a terra se acaba e o mar começa» para se suprir na grandeza de ser apenas uma praia ou um fio dourado entre os homens e Deus.

Uma Avé-Maria na Ilha de Camões são dez telas feitas a partir da «ilha angélica pintada» de Camões, ou tão só, dez aparências de relâmpago num arquipélago de imaginação criadora no vasto oceano da Viagem.

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CARLOS AURÉLIO

Nasceu em Vila Viçosa, em 1956. A sua formação em Artes Plásticas pela ESBAL levou-o à vida de professor de jovens alunos. Desde sempre se sentiu chamado ao mundo das artes e da filosofia, integrando tertúlias e grupos de “investigação espiritual”.

Participou em exposições colectivas e individuais, da fotografia à pintura, de Portugal ao estrangeiro. Para além da presente mostra - Uma Avé-Maria na Ilha de Camões - as duas exposições individuais anteriores revelam a sua índole patriótica e religiosa: O Mapa de Portugal (1996) e Pater Noster (2002). É também autor de três livros: Mapa Metafísico da Europa (2003), Considerando os Filósofos (2008) e Cartas de Noé Para Nayma (2010).

Carlos Aurélio, sempre que vence a parte da ilusão que lhe coube, tenta olhar os outros com atenção, aprender a conhecer-se e amar a vida. Não obstante os velhos prodígios de materialistas e os dos novos economistas, o autor crê firmemente que «aquele que não ama, não conhece a Deus, porque Deus é amor», dito por São João, e que, precisamente, só «o amor move o sol e as outras estrelas», cantado por Dante.

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Local: Oficina das Artes
Acesso: Incluído nas condições de acesso à Quinta da Regaleira

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Na imagem:

O Mistério do Matrimónio (pormenor)
Carlos Aurélio, 2009
Acrílico s/ tela
100 x 81 cm

Destarte, enfim, conformes já as fermosas
Ninfas c’os seus amados navegantes,
Os ornam de capelas deleitosas
De louro e de ouro e flores abundantes.
As mãos alvas lhe davam como esposas;
Com palavras formais e estipulantes
Se prometem eterna companhia,
Em vida e morte, de honra e alegria.

Os Lusíadas IX, 84